Felipe F Falcão

Textos


 



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Adriano, por acaso descobriu aquela “passagem secreta na cerca” devido a sua curiosidade de ficar ouvindo as conversas da mãe coma vizinha Dona Alzira, praticamente todas as tardes. Entre essas conversar, surgia para Adriano, palavras e frases que ele não entendia o sentido e por isso, deixava apenas para os adultos.

Não podia associar o que ouvia “ desuas duas mães” com o que conhecia por não conhecer quase nada além do que o seu pequeno bairro oferecia e por ser criança ainda. Nas conversas das duas amigas, surgia assunto que citava um fulano que matara um sicrano, um tal bandido que usava uma luz vermelha, era coisa ruim mesmo. O marido de outra vizinha ainda não havia sido registrado no emprego, que os homens de alguns países distantes estavam usando o que para Adriano eram bichos de sete cabeças como: canhão, metralhadora, b52, gente muito jovem nos campos de batalhas e revolveres. O que seriam todas estas coisas? O pequeno Adriano não fazia a menor ideia. Por que o mundo para ele, incidia, apenas no bairro que morava.

Mais confuso ele ficava, quando da conversa entre as duas amigas, ele ouvia que faca não era usada apenas para cortar pão, pescoço de galinha ou verdura da horta. Adriano, como qualquer criança por inocência, só praticava o que ouvia, quando tinha a oportunidade ao alcance das suas mãos, ou seja, aprendia o que era uma pipa por usar bambu, folha, cola e linha. O que era jogar bola, porque tinha a bola, o campo, os colegas e, é claro o pé para chutar a bola. Para se esquentar do frio, lenha e fogo, e assim por diante.

Mas quanto a um revolver, ele aprendia num dia a palavra e esquecia logo no dia seguinte, por nunca ter visto um em seu bairro, ou alguém com um. Nem mesmo pela televisão, Adriano poderia ter visto um revolver, o aparelho era raro, difícil de ver um até mesmo na vizinhança.

Adriano levou para sua fase adulta, boas lembranças de sua mãe de leite Dona Alzira. Mas da mãe de vida Dona Maria Tomazelis, levou valores para todos os sentidos. Às vezes, Adriano gostava de observar sua mãe na cozinha preparando o jantar. Pode perceber mais tarde em sua vida quase adulta, que amava a sua mãe e as coisas de sua infância, pelas simples lembranças que lhe vinha do cheiro de alho e cebola fritando no óleo para fazer arroz. A colher de pau ia para frente e para trás, e depois dava uma circulada na panela antes de receber a água quente. O som que este movimento provocava, deixou para ele, um jeito, um estilo de mexer o arroz na panela, que parece ser tão sem impor, mas que o seguiu para sempre.

O garoto livre de preocupações e protegido das dores o mundo, por ter como o seu mundo, apenas o seu bairro, veio a admirar e muito a sua mãe que já havia com sua amiga de cerca a Dona Alzira, ultrapassando juntas em interesse e conhecimento as cercas da cidade, e do país. Chegando a um mundo... um mundo que para Adriano ainda não existia por estar muito, muito além do seu bairro que para ele já era como o mundo todo, na sua existência. Adriano deixaria de ser criança, vivendo dia a dia. E o centro da cidade? Não o incomodava de forma alguma a sua existência.

Dona Maria Tomazelis, só conversava sobre os problemas maiores da vida com sua amiga Dona Alzira. Adriano só conheceu a visão da mãe sobre o mundo quando cresceu e pode dar ouvido a ela também. Mãe maravilhosa, vida maravilhosa, passa as horas, passa os dias e os anos, e acontecem tantas outras coisas na vida do garoto.
 
 
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Quanto a escola na vida de Adriano, demorou muito para ele concluir. Essa foi a melhor ou a pior fase de sua vida. Uma professora de nome Elza, parecia gostar de puxar suas orelhas e lhe dar algumas reguadas na mão quando ele não compreendia algo que parecia ser muito simples. Pelo menos era para a professora, mas para Adriano, havia algumas coisas que eram impossíveis de se admitir.

Seu pequeno cérebro não compreendia uma interrogação. Insto pela assustadora impressão que a palavra interrogação parecia lhe causar, e, como um outro sinal parecido com um taco de beisebol poderia representar a exclamação. Era inaceitável para seu jovem cérebro, quando ouvia da professora Elza a palavra exclamação, não associar a silaba “cla” da palavra com a curvatura de um cabo de guarda-chuva. A silaba “cla” da palavra para ele só poderia vir de cabinho de guarda chuva e jamais do taco de beisebol. Também, sempre que se deparava com um sinal de exclamação representado como que lhe parecia ser um taco de beisebol. Ele ficava imaginando alguém dando com ele em sua cabeça, ou mais assustador ainda: visualizava um cidadão sentado em uma cadeira com os braços amarrados para trás como nos filmes de gangster, numa sala sem portas aparentes, uma forte lâmpada próxima da sua cabeça, os olhos vendados, entre dois homens fortes com chapéus e roupas pretas, tendo cada um, ponto de exclamação na mão, interrogando-o com voz ameaçadora:

- Conte tudo ou lhe estouraremos os miolos!

Mais tarde ficou feliz e com sentimento de culpa por não ter sido um bom aluno para Dona Elza. Ela tinha não só toda a razão, mas, também amor e respeito pelo trabalho, compreendendo bem a responsabilidade que tinha em suas mãos. “Pobre” Dona Elza, morreu bem velhinha e com depressão. Seu coração de professora séria e cheia de amor pela educação, não resistiu aos desmandos do governo estadual e prefeitura, em insistir em pagar uma miséria para os professores, levando-os a enfrentar uma jornada de dezesseis horas por dia, para se ter uma vida mais ou menos digna. Mas, a cereja do bolo, foi a aquela “novelinha” de mau gosto e prejudicial a juventude que a rede globo passa todas as tardes, “professor palhaço, foi demais para ela”.
 
***
           
0s poucos amigos de infância de Adriano, sonhavam em ser de tudo quando crescessem, bombeiros, donos de padaria, trabalhar a farmácia do bairro ou na carvoaria do Sr. Antônio. O senhor Antônio era um português que educava os filhos de forma firme, mas que lhe fazia rir quando pronunciava ao invés de carvão, “Crivui”.

A carvoaria permitia a molecada de poder trabalhar quando quisesse, além de ser divertido os passeios de carroça puxada por um forte cavalo sem orelhas, ainda tinha tubaína, misto quentes e doces como forma de pagamento. Não era trabalho forçado. A não ser para o filho do Sr. Antônio que se esforçava mais do que o cavalo sem orelhas. A parte chata da profissão de encher saquinhos de carvão ou “Crivui” como dizia o português, era quando a mãe de Adriano lhe esfregava os braços e a cara “preta” no tanque para tirar o carvão.  Quando lhe perguntava o que ele iria ser quando crescer, ele respondia:

- Qualquer coisa.

Mas dizia para si mesmo, no íntimo, “qualquer coisa, menos diminuir o valor do meu nome ou deixar de ser quem eu sou”.

Os amigos e colegas que foram crescendo junto do pequenos Adriano, talvez não percebiam, mas ele não deixava de ser além de feliz, também pudico. Não conseguia esconder seu medo de ferir a decência, as veze para os amigos e colegas ou as vezes só para ele mesmo. “ Talvez para Adriano Reis, ser pudico ou ter medo de ferir a decência vinha de uma necessidade sua de conversar com a própria consciência como se essa não fosse parte de si mesmo. Sua consciência sempre lhe cobrava o valor das suas atitudes”.

Todos que dessem atenção as coisas importantes que lhe acontecia da infância até a fase adulta poderiam perceber que ele, talvez por um senso de justiça não intencional, ou por índole mesmo”, ele acrescentava sempre um comentário a respeito de si mesmo, independentemente de ser favorável ou não. Um comentário do tipo: ‘ ah! Adriano, eu sabia que ia dar nisto ou, eu sempre faço destas coisas’. “ Que faz isso se não a consciência”.

Mas Adriano tinha prazer em se ver no mundo, compartilhar e deixar-se compartilhado por ele. Adriano já sabia e sentia que a terra que pisava e o céu que admirava, estava, vivos, e por isso, ele vivia agradecendo a um personagem desconhecido por todo de bom que a ele fora dado na infância.
 
***
Adriano Reis cresceu assim, cheio de queres. “ Talvez duas mães”, dois pares de peitos, duas casas, duas guerras mundiais, e teve também dois donos*; um, era invisível, mas perceptível de alguma maneira mesmo na sua infância. Não lhe cobrava nada, não lhe machucava e era bom inteiramente bom. O nome até então poderia ser liberdade. Já o outro lhe seria apresentado mais tarde, quando adulto.

*o outro dono ao qual Adriano se referia, e era assim que ele gostava de se sentir na realidade, era o mesmo a quem ele agradecia por sua infância maravilhosa. A não lembrança da sua existência antes de abrir os olhos e parar de mamar em sua mãe de leite, dona Alzira lhe encomendava, mas pode novamente agradecer por estar vivo quando concluiu em sua vida, já adulta que seria impossível a inexistência de deus.

Continua...

Para ler o próximo capitulo, clik no titulo a frente: O CANINDÉ O ÍNDIO QUE NEGOU O TEMPERO - 5 Capitulo (serie romance)
Felipe F Falcão e João Silva
Enviado por Felipe F Falcão em 10/12/2016
Alterado em 29/12/2016
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