Felipe F Falcão

Textos


A MASSA QUE AMASSA A MASSA
 
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As vezes buscamos lembranças e as vezes elas nos chegam sem esperamos. Lembrei-me de um retorno que fiz depois de um passeio ao Ibirapuera, de uma entre as verias coisas que se ouve mesmo sem querer, mas poderia de alguma forma compor a minha construção. Foi quando indesejavelmente tive que dar ouvidos a um tipo esquisito e metido, daqueles que acredita que por apenas cursar uma faculdade será alguma coisa na vida; estávamos no ônibus e ele dizia para o conhecido ao lado, algo que parecia querer mostrar a diferença existente entre a massa da população rica a poderosa da massa de população pobre e serviçal, ele dizia:

- O problema é que neste pais de 200,4 milhões de habitantes apenas uma minoria tem prazeres individuais. Não me refiro a prazeres de estar em uma praia, numa festa, num baile ou em algum lugar com ar puro, e sim o prazer de criação. O que eu quero dizer é que cada indivíduo tem o seu direito de se expressar de várias maneiras diferentes e que se possa assim se tornarem mais interessante. A grande massa tem de dar uma resposta a pequena massa. Não acho justo a grande massa ter apenas um fim de semana para descartar como qualquer escravo tem de ter para durar pelo menos uns quarenta anos uteis a menor massa que é a proprietária da grande massa.

Sem entender muito bem aonde aquele cara queria chegar com aquela conversa, não tive muito que fazer a não ser ter que continuar ouvindo aquele assunto “Cheguevarista” do cidadão de talvez algum futuro pai sem bom emprego. Estávamos apenas no meio da 23 de maio, e o assunto continuava:

- Quando a praia ou o feriado e para um, também é para todos, - continuou o sujeito – o transporte triste e desconfortável e para todos, assim como o “Mcmerdad” e o “Habibschichi”. Quanto maior for a oportunidade dada a cada indivíduo de criar, maior sem dúvida será o prazer coletivo, sem esmolas ou liberdade condicional.

O grande mal que impera sobre a grande massa é apostar em um bom resultado no poder da pequena massa. A lembrança e herança que temos hoje de grandes homens do passado certamente serviram para as gerações futuras por culpa da nossa falta de oportunidade de criação neste presente tempo, que só o dinheiro e quem cria a arte falsa e limitadíssima sem nenhum conteúdo individual de inspiração, e tudo isto e mal e muito mal.

Não posso dizer que este cara que me surgiu na memória fosse um chato de galocha, “ apesar de que para mim, ele era”. Mas não é um amigo, e eu não conheço os amigos dele. Certamente se eu me mudar-se para o bairro dele e não conseguisse me enturmar, o grande chato seria eu, e com toda a razão. Só posso crer que ele veio a minha memória por que o meu cérebro já está revirando os baús da minha consciência para a construção do meu eu fora de mim.
 
***
Enfim a praça da se, e depois de rodar tanto nem notei mais as torres da catedral, a banca de jornal ou tive motivo para ter dor na testa, minha casa me aguardava, mas a construção não parava.
 
 

 
 
STRESSE
               
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Eu não sou um homem só, a não ser que ainda hoje eu não receba mais o telefonema da minha namorada. Minha construção, “ o meu querer” tem tomado todo o meu tempo sem me deixar concentrar em mais nada a não ser por esta já desenfreada busca por mim mesmo. Não foi nada fácil para eu conseguir namorar, talvez pela magreza, o nariz muito grande ou o jeito esquisito de ser não sei ao certo. Não que a Gloria seja tão linda assim, apesar de ganhar facilmente da dona Bela da escolinha do professor Raimundo, mas ela tinha um it legal e me fazia um cafuné que nem a dona Lola conhecia.

O fato é que a Gloria me chamava muito a atenção sempre que eu passava em frente à loja Tamacavi da Rangel Peçanha. Depois de muitos ensaios e de versos escondidos, não precisei nem de vinho para entrar na loja e me declarar a ela de forma até engraçada, porque ao entrar a super apertada por estar cheia de moveis por todos os lados, consegui encontra-la para um oi e em seguida disse tudo o que tinha guardado já por um longo tempo. Sem me importar com quem estivesse vendo, ouvindo ou não, me aproximei o mais perto possível deixando entre nós apenas um braço de bebe. Fui direto ao ponto:

- Gloria... Sabe que, como conta para pagar eu nunca te esqueço, como trancar as portas ao sair de casa eu nunca esqueço, como Jon Lenom amou Ioko Ono eu não te esqueço e como o Tagi Mahal a Janjira eu não te esqueço. Luto contra a amineze total mas eu não te esqueço. Mesmo que eu me desmiole, que me joguem fora como chutam bola eu não te esqueço. Mesmo que me sobre agora somente uma hora para lembrar que a flora me lembra o seu nome, e que o seu nome é Gloria a Gloria que eu mereço mesmo com um pé com gesso. A culpa agora é só deste berço que me impede de te dar um beijo, mais eu não te esqueço, eu não te esqueço. Não te esqueço.

Ela já completamente perdida de amor me pergunta com uma voz mansa e lenta.

- Quem te disse que o meu nome é Gloria?

Eu respondi já preparando um beijo por cima do berço mesmo.

- Foi o crachá no seu peito quem em disse.

Foi nesta primeira e última vitória que eu tive sobre a timidez que eu comecei a namora-la com a duração. Já dura oito meses unido a uma promessa falsa de jamais esquece-la. Mas, pelo que me parece, o vento mudou por culpa da minha construção solitária.
 
***

Tudo começou no início do mês passado quando tomei um sorvete e tive uma dor de dente horrível. Fui rapidamente ao dentista. Logo tive dor de cabeça, pois a anestesia não pegava. Quando fui na farmácia recebi um remédio inútil e caro. No fim do mês com a dor de cabeça mais alta, foi o cheque da farmácia não ter fundo por falta de concentração e dinheiro.

Ao voltar para casa, de pois de uma das minhas andanças pela cidade, no transito... quando vi um acidente com vítima. Ao ver uma pessoa com a boca bem machucada, me lembrei do dentista, da farmácia, do cheque, do dinheiro, do meu esquecimento e é logico, do maldito sorvete que eu ganhei da minha já considerada ex-namorada, pois ela não me telefonou mais. Tudo isso foi na semana passada e o telefone dela é dois, dois, não dois três um, não. Como será mesmo?

Maldito sorvete, maldita cidade e maldito querer! Grande prejuízo e espero que seja o último. Ceio com certeza que a partir disto agora sou um homem só. Minha construção me fez esquecer do que para mim parecia ser inesquecível. Mas quando tudo isto acabar, pretendo voltar a Tamacavi da Rangel Pestana com um novo truque para tentar reconquistar a Gloria.
 
 
 Continua....

 



Para ler o próximo capitulo, clik no titulo a frente:O CANINDÉ - O ÍNDIO QUE NEGOU O TEMPERO - capítulo 11 ( série romance)
 
Felipe F Falcão e João Silva
Enviado por Felipe F Falcão em 22/01/2017
Alterado em 02/02/2017
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