Felipe F Falcão

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VENTO SINISTRO
 
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Procurando uma boa ideia para a construção do meu... digamos... um Tom Cruise ou quem sabe Frankenstein, se por algum acaso as coisas não correrem bem, fui a exposição de um artista plástico sem nome conhecido ou famoso no Centro Cultural de São Paulo. Estranhei muito não haver mais ninguém além de mim para tentar entender aquela obra que tinha como atrativo principal, ser de entrada gratuita.

Tentei mesmo sem ter alguém para debater, entender aquela engenhoca. Era uma mistura de televisão com uma daquelas maquinas de fazer a carne ser moída nos açougues e uma enorme caixa em seguida recebendo tudo o que passava pelo moedor. Na realidade eram duas TVS ligadas em canais diferentes. Imediatamente e mentalmente roubei aquela engenhoca para quem sabe de alguma maneira utiliza-la na minha construção. Como numa profecia destrutiva assistia o que se passava.

Enquanto na primeira TV via-se uma aula de culinária que mostrava todos os cuidados que se deve ter com as comidas gordurosas, dizendo que massas em excesso engordam e que também um lindo bolo com cobertura de chocolate pode dar gordurinhas localizadas além de que os cuidados com a alimentação são fundamentais para a boa saúde.

Na segunda TV se via duas crianças já quase mortas de fome, uma africana, e outra nordestina. A dona do programa que havia convidado a nutricionista e nem a própria nutricionista tinham conhecimento da máquina de moer carnes, da carne moída de gente que caia na caixa, sim, só duas mãos abertas recebendo o dinheiro que caia da máquina que para elas, não era uma máquina de moer carne de gente e sim uma outra máquina, um caixa eletrônico sem necessidade de senha.
 
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Homens loucos são estes artistas plásticos! Eu estranhamente o odiei seja lá quem ele fosse. A máquina ia moendo e transformando os valores de tudo que passava nas TVS. Era Lady Day dando passagem para Xuxa ir visitar Angola, mas a Xuxa não ia. A seleção brasileira desfilando e acenando para os habitantes, sem nenhum escrúpulo ou vontade de desistir da carreira depois daquela demonstração de reis do futebol.

Passavam as imagens e a máquina moía. Eu sem entender tudo aquilo, via o Augusto Liberato, “sim o Gugu”, lá estava ele m uma das TVS demonstrando árduo trabalho que algumas mulheres sem formação escolar tiveram para sair na Playboy. Na outra TV a imagem era de uma outra moça com todo o corpo coberto por uma roupa suja com um lenço também sujo na cabeça. Na mão direita um facão, na esquerda umas duas ou três canas juntas no jeito de receber o golpe do facão. A boia fria é quem entrava naquela maquina também fria sem se saciar de moer carne de gente.

Muitas mãos na caixa recebiam o dinheiro que sempre caia. Eu que odiava aquele artista, depois de assistir já na minha casa a um programa da Marcia goldschmidt, João Cleber e Sergio Malandro, resolvi ser perdoador com o Gugu e todos passando a acreditar no crente da praça da sé que disse este mundo ira se acabar. “Homem esquisito era aquele crente, homem bravo o artista plástico, ou seria uma mulher brava? ” Dizia minha consciência.
 
 
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Construção. Palavra linda, parece que se pode tudo com ela. Com ela se faz casa, prédio, família, trem, dicionário, bomba, remédio e até máquina de moer gente. Maldito artista plástico, onde e em que parte da minha construção eu vou colocar aquela máquina surreal que eu conheci. Mas visto que ela entrou pelos meus olhos, eu a irei expulsa-la pela minha boca. Sem amargura ou revolta, mas sendo doce com quem é doce e amargo com quem é amargo. Assim terei amigos e não inimigos, mas jamais desejo ter inimigos e sim só continuar roubando um pouco dos queres das outras pessoas para a construção do meu próprio querer.

Eu também sou um dos que querem que o Brasil dê certo, e espero francamente que esta minha busca por uma real utilidade do que se aprende lendo e muito os livros de Joao Cabral, Graciliano, Mario de Andrade, Clarice e Rute entre outras, espero que tudo me seja útil. Pois infelizmente e por culpa do meu cérebro defronto tudo o que por minha         espontânea vontade leio com o que infelizmente e contra a minha vontade ouço por imposição da mídia e pessoas. Assim sei da existência de muitos movimentos musicais que vou por aí querendo ou não ouvindo como o Bonde do Tigrão, Marcelo D2, Charles Braw, Titãs ou Capital Inicial. Espero colocar todas estas informações “sem comparar uma com a outra” juntas na construção do meu autentico paulistano sem que ele se sinta incomodado ou também bravo comigo por querer ver coerência na cultura escrita com a cultura musical.

São Paulo nos oferece tudo de uma só vez, sem se importar se está tudo misturado bem resolvido ou não nas nossas ou só na minha memória como numa casa em que se encontra tudo mal arrumado e fora do ligar, precisando urgente de uma boa limpeza para jogar fora tudo o que não presta. Minha construção o meu eu fora de mim terá de aprender por si só a selecionar o que for útil ou não. Espero francamente que tudo isso acabe na conclusão de que: quem não tem roupa para lavar, um chão para esfregar ou uma lâmpada para trocar, só faz besteiras mesmo. Mas basteiras por besteiras é bom ouvir a Pyt Cantar: Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra ah. Se vê, ouve e lê tantas coisas por aí, uma a mais uma a menos a bolsa não vai quebrar.

E aquela máquina de moer gente agora e minha viu. Quer dizer o meu cérebro a alugou na realidade e se deixou influenciar um pouco por ela. Com ela resolvi moer ideias, ideias de quem se expressa e acha que toda forma de expressão jamais ira ferir os outros de alguma forma. Espalham-se ideias num ventilador sem se importarem com o resultado do conteúdo.
 
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Um jovem guerreiro que iniciou a sua carreira há décadas atrás me inspirou muito quando subiu em um palco, “ quebrou tudo”, perturbou toda a juventude da época sem perdoar até o júri e todos os que diziam não as boas ideias. Aquele jovem pediu para ser desclassificado daquele evento musical (pelo menos foi o que eu soube). Cabra macho era aquele, e diferente dos outros, matava a cobra, mostrava o pau e a cobra morta junta. Não correia de briga não, mas a sua única “arma” era e ainda é, a palavra. Jovem ousado era aquele não iria poupar nem presidente omisso. “ Não pise neste chão com força Reis, pode ser mais fácil dizer não ao não do que não ao sim” – dizia minha consciência.

Continua....


 
Para ler o próximo capitulo, clik no titulo a frente:O CANINDÉ - O ÍNDIO QUE NEGOU O TEMPERO - 12 capítulo ( série romance)
Felipe F Falcão e João Silva
Enviado por Felipe F Falcão em 30/01/2017
Alterado em 21/02/2017
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